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riscos_e_rabiscos

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* Nada escapa aos olhos das crianças...*

De manhã fiz a higiene habitual tomando uma banhoca e como hoje o dia nos brindou com um lindo céu azul e um sol de inverno quentinho e aconchegante, esmerei-me na secagem do cabelo. 

 

Chego à minha primeira turma e tenho um menino e uma menina a perguntarem-me:

 

- Ó teacher, esticaste o cabelo?

 

Surpreendida pela pergunta, respondi:

 

- Sim e não... sequei normalmente e como hoje está sol e não há humidade no ar, não tenho os poltergeists todos levantados na cabeça...

 

Risota geral. Pergunta o menino:

 

- Polter quê? 

 

Eu explico:

 

- Poltergeists... são assim uma espécie de fantasmas que, neste caso, são os cabelos pequeninos que estão a nascer e que ficam no ar parecendo fantasminhas a dançar...

 

Risota geral de novo. É tão bom poder brincar e rir com os meus meninos. Há turmas que sabem estar e que sabem quando é hora de brincar e de trabalhar.  

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O Pum.

Enquanto o meu 3º ano procedia às rotinas iniciais da aula, notei que havia duas alunas a olhar com cumplicidade uma para a outra mas ao mesmo tempo com ar aflito. Estranhei.

 

Simultaneamente, olharam uma para a outra, levantaram-se das suas mesas e vieram ter comigo à minha secretária.

 

A M. toma coragem e diz-me:

 

- Ó teacher, o C. está só a dar puns...

 

- É verdade, teacher - diz a I.

 

- Já na aula de língua portuguesa ele estava a fazer o mesmo... era só puns malcheirosos... - diz a M.

 

Eu mal contive a vontade de rir, assim como toda a turma... Opá se há coisa que dá vontade de rir ao ser humano é um "punzinho melodioso", não é? Mas compreendi que as miúdas já deviam ter ficado verdes, amarelas, azuis, roxas e por aí afora. Por isso disse:

 

- Ó C., não queres ir à casa de banho?

 

- Não... - responde o C.

 

Como eu já vivi esta situação algumas vezes, insisti...

 

- Vai lá... via libertar o stress... sim, porque isso é stress... é dos nervos... vai lá...

 

A turma estava toda roidinha para desatar em gargalhadas por eu dizer que as ventosidades anais eram do stress, dos nervos, mas já sabiam que iam levar nas orelhas e contiveram-se.

 

O C. lá se levantou, dirigiu-se para a porta com o ar molengão que o caracteriza e um sorriso nos lábios, enquanto eu lhe dizia:

 

- Vai lá libertar a gaseificação que isso é dos nervos...

 

Oportunista, o K. veio ter comigo e perguntou-me:

 

- Também posso ir à casa de banho?

 

Como tinha acabado de vir do recreio, neguei:

 

- Não... eu só deixei o C. ir porque é uma questão de vida ou de morte... é que se ele não for libertar o stress à casa de banho, morremos aqui todos intoxicados...

 

E pronto! Parece que foi remédio santo. O K. já não quis ir à casa de banho, talvez com medo do "ar" que lá fosse encontrar, a M. não voltou a queixar-se e as "bombas antónias" pareceram ter cessado.

 

Ainda não foi desta que as potentes bombas antónias do C. conseguiram eliminar-nos... Ahahahah!

 

Lápis De Quê?!

 

 

Sala de aula. Turma do 2º ano. Desenvolvia-se uma actividade de consolidação da matéria aprendida. A teacher explica a actividade:

 

- Olhem para o vosso livro... estão a ver aqui os objectos a tracejado, não estão?

 

- Yes, teacher!

 

- O que vão ter de fazer é passar por cima vom o lápis de canela...

 

- Ó teacher não é lapis de canela... é lapis de carvão!

 

-  Ah pois é...!

 

(Risota geral.)

 

Parece que afinal os lápis não servem apenas para escrever ou pintar... Digam lá que estas fotos não são espectaculares?!

 

 

 

 

 

À Porta Fechada!

 

Não há nada como terminar uma semana de trabalho com um desfecho inesperado. É isto que dá sabor à vida!

 

Dia de aulas, último dia da semana, aulas leves e divertidas porque a brincar também se aprende e não são só os putos que gostam de brincadeira, aqui a teacher também gosta!

O meu primeiro ano chegou atrasado pois houve torneio de futebol, e a equipa das florinhas ia participar. Aproveitei para trocar impressões com algumas colegas. Já sabem que mal entro no colégio vou dar uma beijoca a todas as salas.

 

Mal entrei na secretaria, deparei logo com um problema de desajuste de contas com o qual não tinha nada a ver. Pirei-me dali logo.

Quando subi ao primeiro andar deparei-me com a M. em pânico, pois o avô de um aluno nosso tinha-a apanhado em flagrante a dar duas palmadas no braço do neto. Nada de especial. Foram aquelas palmadas para indicar que o puto se devia despachar. O avô compreendeu e deu razão à professora mas a sensação de culpa acaba por ser terrível. Não tenho feitio pra isso mas que o puto às vezes merece 1 palmada mas no rabo, merece. Enfim!

 

Depois encontrei a G., a famosa defensora dos mini-delinquantes. Agora digam-me lá… tenho cara de padre? Ou de confessionário? Todas elas vêm ter comigo para desabafar. Agradeço imenso a confiança e eu sou um túmulo mas às vezes não me apetecia saber…

Mais elogios aos mini-delinquentes, queixas das outras professoras e utilização, da minha parte, de toda a minha diplomacia para lidar com estas coisas.

 

Fui dar aulas ao 3º ano, que chegou também atrasado por causa do torneio de futebol. Até se portaram bem, tendo em conta a excitação natural depois dos jogos de futebol.

Assim que saio da aula do 3º ano, deparo-me com um grande espectáculo – o 4º ano tinha feito asneira de novo! Greeeeat!

 

Vejo a S. zangadíssima à porta da sala, tentando abri-la. Aproximo-me de uma educadora que estava juntamente com a turma para me acercar do assunto, e ela conta-me que alguns alunos se fecharam à chave dentro da sala.

Afastei a turma para um corredor anexo para evitar mais excitação, enquanto a S. tentava resolver a situação. Finalmente, abriram a porta e foi tudo seguidinho até ao director sem um pio. A S. parecia uma “sargenta” e, parece-me que esta turma só percebe esta linguagem.

 

Entrei para a sala e comecei a dar aula, Passado um pouco, entram os mini-delinquentes prontos a perturbar o resto da aula. Mandei começar a trabalhar e é quando um deles me diz que não tem ali o material. Autorizei que saísse para o ir buscar e, não é que o mal-educado me manda a porta contra a parede fazendo um grande estrondo? Cortei logo o mal pela raiz. A todos. Esse pegou nas coisinhas e foi de castigo para a sala de estudo. Os outros não tinham autorização sequer para mexer os lábios a não ser que eu pedisse.

Já estou tão calejada que nem me aborreci com isto. Continuei com o bom-humor com que me sentia.

 

O resto da aula correu bem e eles trabalharam. Segunda-feira é teste e eu vou rir-me imenso, de certeza. Costuma ser sempre assim porque eles não têm métodos ou hábitos de estudo e de trabalho. Os resultados podiam ser óptimos.

 

Gostaram? Digam lá que a minha vida não é cheia de animação?! E eu… eu não quero outra coisa! Ahahahah!

 

 

 

 

Insolência não, obrigada!

                

 

Esta semana tem sido a semana em que a minha paciência tem sido testada a ver até onde aguenta. Até nem sou uma pessoa paciente para certas coisas, mas para outras reconheço que sou mais do que o geral das pessoas. Se calhar muitas em situações com as quais me deparo, algumas vezes, já teriam explodido mais cedo.

 

Fui dar as minhas aulas toda feliz e contente, até porque tinha umas aulas giras para dar. Ainda por cima hoje é o dia do 1º ano. Cantam já tão bem em inglês… Os putos são uns amores. Quer dizer, as minhas turmas são todas compostas por crianças amorosas, excepto a minha do 4º ano que tem meia dúzia de elementos de fugir a sete pés. Os outros são uns amores também.

 

Hoje foi o dia em que a corda partiu. Esses alunos do 4º ano têm andado a esticar a corda desde a semana pasasada. Todos os dias têm de fazer trabalhos de casa extra – que não fazem – como castigo e todos os dias têm ido de castigo para o director (o que não tem adiantado nada). As queixas não se limitam à minha aula e sim de todos os professores, em geral.

O director já deve estar pelos cabelos. Os profes já falaram pessoalmente com eles para os chamar à razão, o director também já o fez mas as atitudes e comportamentos continuam os mesmos.

 

Não respeitam colegas, professores ou regras. Pensam que podem fazer o que lhes apetece, ou seja, nada e que podem conversar uns com os outros como se estivessem no intervalo. Aprender?! Para quê?! Que não aprendam, tudo bem mas pelo menos deixem os colegas aprender. Estas abéculas não têm o direito de impedir os outros de aprender!!!

 

Hoje passei-me da cabeça e levaram a maior descasca que alguma vez tinham levado aqui da Pessoinha. Senti-me uma panela de pressão. Cheia (de nervos) já eu estava de todas aquelas situações, depois, danada, gritei com eles (confirmei a minha suspeita de que eles só entendem este tipo de linguagem) ameaçadoramente e, por fim, fez-se silêncio. Desconfio que depois comecei a deitar fumo pelas orelhas e faíscas dos olhos.

Continuei a minha aula como se nada se tivesse passado, com a voz mais calma do mundo mas com a cara mais trombuda que eles alguma vez viram.

 

Digam lá que não faziam o mesmo que eu?! Não acatam as vossas ordens, não trabalham, têm o desplante de responder àquilo que vocês dizem, em vez de estarem bem caladinhos e são insolentes ao ponto de vos dizer que não gostam de vocês. Se eu dissesse isto a algum professor, quando era aluna, no mínimo dava direito s uma falta disciplinar. E nem é pela questão do que disseram mas pela forma como o disseram. Não agradamos, como é óbvio,  a todos e eu não sou paga para agradar aos “meninos” mas sim para ensinar.

E podem ficar descansados que não atingiram a minha auto-estima pois o que me disseram não me afectou. Dizem o mesmo e coisas piores das outras três professoras que lhes deram aulas o ano passado e que se foram embora por não estar para aturar aquilo.

 

No fim da aula, levei-os ao director e mandei-os explicar – como faço sempre – porque estavam ali. Ficaram calados que nem ratos. A valentia ficou dentro da sala de aula. Mas eu contei o que se passou. O director, coitado, ficou capaz de os engolir pois tinha estado a falar com eles uma hora antes sobre o comportamento deles. Eu já tinha verificado que falar com eles não servia de nada.

Em frente a eles, disse ao director que hoje tinha sido a gota de água e que não admitia mais insolência. E que se isto se repetisse novamente, exigia uma reunião com os pais dos alunos. O director informou os alunos que na semana que vem, iria marcar uma reunião com os pais, em que os alunos estariam presentes, para resolver a situação.

 

Já não aguentava mais estar sempre com paninhos quentes e a “tolerar” as porcarias que os meninos fazem nas aulas. Acham que exagerei?

A minha vontade era gravar os meninos para depois mostrar aos papás como os meninos se comportam na sala de aula. É que às vezes contar só o que se passa, não basta!